Review por: Pablo Vieira
30/03/2026
Paul em Casa
de Michel Rabagliati

Cada dia que leio HQs percebo que me torno um leitor mais maduro. Explico-me: no início da adolescência, o meu eu-leitor só consumia hqs de super-heróis, 4 décadas depois... não tenho dúvidas que para apreciar completamente um tipo de arte, é preciso amadurecer e consumir/ler diferentes tipos de história. Dito isto, afirmo categoricamente: Paul em Casa é uma hq fora-do-comum (expressão utilizada pelo meu saudoso pai quando queria elogiar qualquer obra de arte e/ou artista com talento extraodinário). Mas o porquê de Paul em Casa ser fora-do-comum mesmo sendo uma hq sobre o comum, o cotidiano, o tédio do dia-a-dia etc.?
Michel Rabagliati é um artista que sabe captar de forma competente o cotidiano, o sentimento, as alegrias, as angústias, os sabores, os dissabores do ser humano comum. Fez isso de forma brilhante em A Canção de Roland (história sobre laços familiares e luto), primeira hq do autor lançada no Brasil pela editora Comix Zone de uma série de hqs intitulada Paul... (Paul representando o alter ego do autor).

Paul Em Casa, é a segunda hq do autor lançada no Brasil também pela editora Comix Zone, cuja temática é similar, porém, o foco muda. Agora, a história se passa 15 anos após os acontecimentos de A Canção de Roland e a personagem central volta a ser o próprio Paul. Ele agora está com 51 anos de idade, divorciado, enfrentando alguns problemas de saúde (como por exemplo: apnéia do sono), lidando com a iminente morte da mãe e da separação da outrora pequena Rose (sua filha que agora cresceu e resolveu ir morar na Inglaterra).

Tudo na história é permeado pela rotina ordinária de Michel (ou melhor, de Paul) que vive em Montreal tentando lidar com as pequenas dores e ausências da vida adulta. O autor se desnuda e se mostra como um hipocondríaco, inseguro, receoso de começar um novo relacionamento amoroso etc., enfim, se mostra um ser humano na sua essência.

Tudo em Paul em Casa é comum e, ao mesmo tempo, extraordinário. A narrativa flui e podemos perceber a relação do personagem com as pessoas ao seu redor (com a mãe, ex-mulher, filha, vizinhos, fãs etc.) com seu animal de estimação, o cachorro Biscoito, com a natureza e a própria cidade de Montreal. Michel Rabagliati é um artista singular por saber retratar as idiossincrasias e os sentimentos do ser humano comum. Cada página lida é como estar testemunhando acontecimentos na vida de uma amigo ou de nossa própria vida. A aflição de um filho vendo aproximar a morte da própria mãe, a dificuldade de se relacionar amorosamente com outra pessoa após um divórcio, a insegurança de uma pai ao perceber que a filha está amadurecendo e querendo viver sua vida com as próprias pernas, o receio do artista diante da recepção de sua nova obra. Todos temas humanos e presentes nesse álbum.

O próprio estilo de Rabagliati se sobressai das obras lançadas no Brasil. Ele foi fortemente influenciado pela linha clara de diversos álbuns europeus como Tintin, Spirou etc. Um traço característico que funciona de forma competente para a fruição da narrativa.


Paul em Casa é um belíssimo exemplo de como as hqs podem contar diversos tipos de histórias e retratar de forma honesta e sincera o mundo que vivemos e as conexões que fazemos com diversas pessoas que fazem parte de nossa vida. Um quadrinho a ser descoberto pelo público leitor brasileiro.

