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Review por: Pablo Vieira
02/03/2026

Aqui de Richard McGuire

Toda vez que penso no potencial dos quadrinhos como linguagem, sempre penso no clichê há muito repetido por diversas pessoas que desconhecem tal potencial. O clichê é notório e diversas vezes dito: quadrinhos é somente para crianças, quadrinhos só serve como ponto de entrada para um tipo mais “nobre” de escrita: A LITERATURA. Enfim, somos bombardeados com afirmações prontas, frases de efeito sem serem cuidadosamente analisadas etc. De vez em quando, deparamos com diversas HQs que exploram o rico potencial da nona arte como linguagem, uma linguagem expressiva. Nesse artigo, escrevo sobre uma HQ, em especial, que experimenta e mostra todo potencial de uma arte marginalizada: a revista “AQUI’ de Richard McGuire (publicada no Brasil pela Quadrinhos na Cia.).

Capa da revista AQUI (Quadrinhos na Cia., 2017)

Durante um certo tempo, relegada a um canto da minha pilha de leitura, resolvi dar uma chance a Graphic Novel “AQUI”. Foi num domingo preguiçoso. Após não estar a fim de ler uma HQ cheio de textos (rsrs), resolvi encarar a obra de McGuire por um simples motivo: uma HQ com “pouquíssimos” diálogos e “muita” arte, afinal, não estava a fim de encarar HQs verborrágicas com tramas mirabolantes. Com pouco tempo, vi que tinha cometido um erro, na verdade, agradável erro, pois a HQ, mesmo contendo pouco texto, era uma obra profunda, contemplativa que exigia do leitor uma análise atenta para aproveitar, ao máximo, sua qualidade literária.

 

O roteiro é simples, porém, desafiante! Conta a história de um canto da sala de estar da casa do autor! Como assim???? Uma história sobre UM CANTO!!?? Será que o CANTO iria verbalizar algo???? Como o autor prenderia a atenção do leitor durante mais de 300 páginas???? Eram perguntas que eu fazia quando comecei a leitura.

 

Para minha surpresa, Richard McGuire consegue criar uma narrativa brilhante. A história de um canto da sala se revelou surpreendente, manteve meu interesse do começo ao fim, através de um roteiro que não seguia uma cronologia padrão, era cheio de idas e vindas no tempo. Seguia o presente, de repente, retratava um passado recente, depois mostrava um passado muito distante, pulava muitos anos para um futuro imaginado, retornava a milhões de anos antes de Cristo. Enfim, um vai e vem para mostrar que é possível inovar na maneira de contar uma história. Um dos motivos mais interessantes que prenderam minha atenção e suscitaram questionamentos foi o como não valorizamos memórias e lugares que nos marcam. UM CANTO DE UMA SALA foi lugar de inúmeros acontecimentos: uns tristes, outros alegres, alguns tediosos, outros interessantes, PORÉM, todos marcantes que ajudam a nos tornar o ser humano que nós somos.

 

Basicamente, a inspiração veio da própria casa onde a família McGuire morava. (Não sei se ainda mora, mas isso não vem ao caso agora). A HQ começa retratando 2 datas emblemáticas: 2014, ano em que foi publicada AQUI e 1957, ano em que nasceu o autor Richard McGuire, a partir daí, é um vai-e-vem no tempo sempre retratando o mesmo local. Outro ponto interessante é o belo trabalho de pesquisa feito por ele. São retratadas roupas características, vocabulário utilizado, comportamentos, atitudes das diferentes épocas de maneira fiel e competente. Somos levados a vivenciar cada acontecimento como uma testemunha ocular e cúmplice de diferentes histórias no mesmo ambiente.

 

A ideia original de AQUI surgiu em 1989 quando McGuire criou uma história de 6 páginas e Art Spielgeman a lançou em sua revista RAW volume 2 #01, acreditando na sua inovação e criatividade. Após o lançamento, muitos elogiaram e destacaram seu potencial narrativo. Anos depois, McGuire expandiu o conceito e criou uma Graphic Novel de 304 páginas. De um experimento underground se transformou numa HQ referência para todos que amam ou subestimam o poder que a Nona Arte desperta num leitor.

Figura 2 - Página 1 da Revista de 1989_mcguirehere_001.jpg

Página 1 da primeira versão da história AQUI publicada na revista RAW em 1989 nos EUA.

AQUI  foi lançada em 2014 nos EUA e chegou ao Brasil em 2017 pelas mãos da editora Quadrinhos na CIA. Atualmente, despertou interesse porque uma adaptação cinematográfica chegou ao cinema em 2025, dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Tom Hanks e Robin Wright.

Página de abertura da versão final da história de Richard McGuire publicada no Brasil em 2017, mostrando a sala no ano de 2014, ano de lançamento da Graphic Novel nos EUA

Segunda página de AQUI, mostrando o ano de 1957, quando nasceu o autor Richard McGuire

Para finalizar, retorno ao início desse artigo para afirmar que AQUI, além de expandir a experiência do leitor de quadrinhos, comprova que a NONA ARTE não pode simplesmente ser uma leitura para crianças como muitos, erroneamente, querem que seja. Quadrinhos é um tipo de arte destinada a todas as idades com histórias que contemplam desde a criança que acabara de aprender a ler até o mais experiente leitor que transita por todos tipos de texto.

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